Jornal do Meio Dia
Casal que viveu nas ruas em Itapetininga relata superação da dependência química e conquista da casa própria
Uma história marcada por perdas profundas, mas também por fé, decisão e recomeço. Assim pode ser resumida a trajetória de Carla Silva e Pedro Santos, casal que viveu em situação de rua em Itapetininga, enfrentou a dependência química por anos e, após buscar ajuda, conseguiu reconstruir a própria vida. A história foi contada em entrevista ao Jornal do Meio-Dia, exibido nesta quarta-feira, 7 de janeiro.
Pedro Santos, de 41 anos, natural de João Pessoa (PB), vive em Itapetininga há cerca de 19 anos. Carla é natural do município. Eles se conheceram em São Paulo, onde iniciaram a vida juntos. Segundo Carla, antes da dependência química, ela trabalhava como faxineira e levava uma vida simples. “Sempre fui trabalhadeira. Bebia socialmente, mas não usava drogas. Foi depois, por curiosidade, que tudo começou”, relatou.
O envolvimento com drogas se intensificou após o retorno a Itapetininga. O casal abandonou o trabalho, perdeu a casa e acabou indo para as ruas. Ao todo, foram oito meses vivendo em situação de rua, dormindo em locais públicos, frequentando feiras e contando com doações para se alimentar. “A droga tirou o respeito entre marido e mulher. A gente passou a dar mais valor para as coisas da rua do que para a nossa família”, disse Carla.
Pedro contou que o ponto mais crítico aconteceu quando os filhos do casal foram levados pelo Conselho Tutelar e encaminhados ao abrigo do GAADI, devido à situação de risco em que viviam. “Meu filho mais velho chegou em mim e falou: ‘Pai, o Conselho Tutelar levou meus irmãos’. Ali eu me vi perdido, desesperado. Eu pensei: ‘E agora, o que eu faço?’”, lembrou.
Mesmo diante da dor, o casal ainda passou por recaídas. Até que, em uma madrugada fria e chuvosa, após virar a noite na rua, veio a decisão definitiva de mudar. “A gente sentou numa guia, estava frio, chovendo, e eu falei para ele: ‘Se a gente não mudar de vida, nós vamos perder tudo’”, relatou Carla.
Foi nesse momento que decidiram procurar o ex vereador Milton Nery e pedir ajuda. Eles chegaram ao local em condições extremas. “Nós chegamos tudo sujo, drogados, fedendo. Um morador de rua chega assim mesmo. Aí o Milton olhou pra nós e perguntou: ‘Vocês querem café? Vocês querem ajuda?’”, contou Carla, emocionada.
Segundo o casal, naquele mesmo dia, por uma coincidência que eles definem como providência divina, uma equipe da Fazenda Esperança estava no local. Pedro foi encaminhado imediatamente para tratamento. “Eu fui para a Fazenda Esperança e fiquei um ano lá. O carisma da fazenda mudou a minha vida. Eu era um homem velho, egoísta. Hoje sou um homem novo”, afirmou.
Carla iniciou o tratamento dias depois, sendo encaminhada para uma clínica no Rio de Janeiro. Durante esse período, a família passou por uma das maiores dores: a perda definitiva de um dos filhos, que acabou sendo adotado. “Não foi porque a gente não amava nossos filhos. Foi porque o vício fala mais alto. Essa dor a gente aprende a conviver”, disse Carla.
Após o tratamento, o casal retornou a Itapetininga e recebeu apoio de amigos e padrinhos, que ofereceram um cômodo para moradia temporária. Pedro conseguiu emprego formal e, após um período pagando aluguel, veio a conquista da casa própria pelo Residencial Pacaembu. “Eu nunca imaginei ter uma casa própria. Hoje é uma bênção. É Deus mostrando que vale a pena escolher o caminho certo”, afirmou Pedro.
Atualmente, além de manterem uma vida longe das drogas, Carla e Pedro atuam na pastoral de rua em Itapetininga, ajudando outras pessoas em situação de vulnerabilidade. “A gente dá de graça aquilo que recebeu. Muitas pessoas estão onde nós estivemos um dia”, disse Pedro.
Para Carla, a maior vitória é acordar todos os dias com dignidade. “É uma delícia acordar e saber que você está bem. Ter um teto, uma casa, um lar. A gente sofreu muito para chegar até aqui”, concluiu.
