Jornal do Meio Dia
Milton Nery, líder da Associação Novo Tempo, fala sobre Campanha da Fraternidade 2026, alcoolismo e trabalho com pessoas em situação de rua em Itapetininga
Nesta quarta-feira, 18 de fevereiro, data marcada pelo lançamento oficial da Campanha da Fraternidade 2026 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Jornal do Meio-dia recebeu Milton Nery para uma entrevista sobre fraternidade, moradia, alcoolismo e recuperação de vidas em situação de vulnerabilidade social.
O tema da Campanha da Fraternidade deste ano — “Fraternidade e Moradia” — trouxe à tona a moradia como condição essencial à dignidade humana. A discussão coincidiu com o Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo, ampliando o debate para a dependência química como um dos principais fatores que levam pessoas à situação de rua.
Milton Nery, que desenvolve um trabalho direto com pessoas em vulnerabilidade social por meio da Associação Novo Tempo, foi enfático ao relacionar alcoolismo e crescimento da população em situação de rua.
“Hoje, das pessoas que eu atendo em situação de rua, 90% estão ali por causa do álcool e das drogas. O álcool é a porta de entrada para tudo. Todas as pessoas que estão no crack, na cocaína, começaram no álcool”, afirmou.
Álcool: a porta de entrada silenciosa
Durante a entrevista, Milton fez um alerta contundente sobre o consumo de bebidas alcoólicas, especialmente as de fácil acesso e baixo custo.
“O álcool mata mais rápido que o crack. O crack destrói famílias de forma irreparável, mas o álcool leva a pessoa para a rua e mata silenciosamente.”
Segundo ele, atualmente mais de 200 pessoas estão em casas de recuperação ligadas ao projeto, além de cerca de 60 acolhidas no abrigo mantido pela instituição — quase 300 pessoas retiradas da situação de rua e do ciclo ativo da dependência.
“Se essas 300 pessoas estivessem hoje nas ruas, atingiriam diretamente mais de 10 mil pessoas na cidade. O impacto social é enorme”, destacou.
Trabalho social e enfrentamento ao preconceito
Milton também falou sobre o preconceito enfrentado pelo projeto.
“Tem gente que diz que a gente ajuda ‘só bandido’. Pelo contrário. Nossa missão é tirar essas pessoas da circulação, oferecer abrigo, alimentação, psicólogo, atendimento do consultório de rua e tratamento.”
Ele relatou que ações simples, como oferecer almoço especial aos domingos no abrigo, ajudam inclusive a evitar que os acolhidos circulem em ambientes onde possam conseguir dinheiro para consumir drogas.
Testemunho pessoal de superação
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi quando Milton compartilhou sua própria história de superação. Ex-vereador por três mandatos, ele revelou ter enfrentado o alcoolismo por 30 anos.
“Comecei a beber com oito anos. Demorei 30 anos para pedir ajuda. Fiz seis meses de tratamento e no dia 10 de fevereiro completei 16 anos limpo, sem recaídas.”
Ele destacou que o maior desafio é a pessoa reconhecer que precisa de ajuda.
“A abstinência é muito difícil. São dias de alucinação, sofrimento. Mas o maior passo é a humildade de dizer: eu preciso de tratamento.”
Números do projeto
Nos últimos nove meses, segundo Milton:
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Mais de 500 pessoas passaram pelo abrigo;
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Cerca de 15 assistidos já estão inseridos no mercado de trabalho;
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Aproximadamente 1.000 passagens foram concedidas pelo guichê social para pessoas em trânsito;
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Durante o Carnaval, 53 pessoas foram acolhidas.
“Cada dependente químico tem uma família sofrendo junto. Tem uma mãe que não dorme à noite. A gente precisa pensar nisso”, reforçou.
Como ajudar
Milton reforçou que a Associação Novo Tempo precisa de apoio financeiro, voluntários, psicólogos e assistentes sociais. A sede funciona na Rua João Evangelista, 836, e o abrigo está localizado na Vila Célia, em Itapetininga.
“Quando a pessoa conhece o projeto, ela muda a visão. Nosso trabalho é devolver dignidade.”
A entrevista reforçou a urgência do debate sobre moradia, políticas públicas e combate ao alcoolismo — temas que dialogam diretamente com a Campanha da Fraternidade 2026 e com a realidade social de Itapetininga.
